Quem é Shiva
- Svami Mahavir

- 11 de abr.
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Atualizado: 14 de abr.
“O senhor Śiva é o mestre espiritual do mundo inteiro, está livre de inimizade, é uma personalidade pacífica e está sempre satisfeito consigo mesmo.”
(Srimad Bhagavatam 4.2.2)
O senso comum aceita a trindade Brahmá, Vishnu e Shiva como sendo responsável pela criação, manutenção e destruição do universo, respectivamente. No entanto, a realidade é bem mais complexa do que aparenta ser. Dentre os três, sem dúvida, o Senhor Shiva é o mais intrigante e misterioso, e, portanto, muitos são os que falham ao tentar compreendê-lo e adorá-lo da maneira correta. Diante do imenso quebra-cabeças do panteão dos de 330 milhões deuses védicos, poucos são os que conseguem compreender os diferentes papéis do Senhor Shiva.
Ao mesmo tempo em que é o destruidor, Shiva é também a causa instrumental da criação dos universos materiais. É ele quem controla o modo da ignorância, atuando como o avatar de tama-guna. Mas também é ele quem concede a bondade pura, shuddha-sattva, através da prática de Bhakti-yoga. Ele é capaz de enganar alguns, mas concede facilmente a misericórdia a outros. Ao passo em que é seguido por uma legião de seres demoníacos e fantasmas, é considerado como mestre para muitos semideuses, sábios, iogues e santos.
Ao longo de milênios, o arquétipo do senhor Shiva se espalhou pelo mundo e está associado a Dionísio, na Grécia; Odin, na Alemanha; Atum, no Egito, dentre outros.
vaishnavanam yatha sambhuh
“Shiva é o maior dos Vaishnavas.”
Na parte mais inferior de Vaikuntha, chamada Kailash, reside uma expansão de Vishnu conhecida como Sada-shiva, ou Shiva original. Este Sada-shiva é mencionado no Vayu Purana, Adi 6.79, como sendo Vishnu-tattva, ou seja, pertencendo à mesma categoria que Vishnu.
Há uma outra entidade conhecida como Shambhu, que é uma expansão de Sada-shiva. Este Shambu não é de todo um Vishnu-tattva mas pode ser chamado de Shiva-tattva, pois possui apenas 85% das qualidades de Vishnu. Sua consorte, Mahamaya ou Durga, é uma expansão de Laksmi.
Como uma expansão do Senhor Vishnu, Shiva também é chamado de Hara, e se manifestou como a deidade Hari-Hara (metade Vishnu, metade Shiva) em Navadvipa Dham, na Bengala Ocidental.
Quando associado a Vishnu, Shiva é transcendental às qualidades materiais, mas quando está associado à tama-guna (modo da ignorância), fica sujeito às transformações da natureza material.
É explicado no Shrimad Bhagavatam 3.12.4 que, no início do processo da criação, o senhor Brahmá manifestou os Quatro Kumaras, esperando que eles ajudassem a multiplicar a humanidade. No entanto, porque eram sábios originados da mente de Brahmá, eles estavam inclinados apenas à prática de atividades espirituais. Brahmá pediu-lhes que começassem a criar descendentes a partir de suas mentes, mas eles se recusaram porque já estavam apegados ao Senhor Supremo Vishnu e dedicavam-se exclusivamente a alcançar a liberação.
Ao ouvir sobre a decisão dos quatro irmãos, Brahmá ficou extremamente irritado, e a raiva gerada em sua mente saiu por entre as suas sobrancelhas na forma de uma criança com as cores vermelho e azul misturadas. Esta criança imediatamente começou a chorar e disse ao senhor Brahmá: “Ó criador do destino, professor do universo, gentilmente defina o meu nome e onde devo residir”. Brahmá, então, acalmou o menino e disse: “Ó líder dos semideuses, você será chamado de Rudra, porque chorou com muita ansiedade, mas também será conhecido por onze outros nomes (Manyu, Manu, Mahinasa, Mahān, Śiva, Ṛtadhvaja, Ugraretā, Bhava, Kāla, Vāmadeva e Dhṛtavrata) que representam seus diferentes aspectos e atividades. Meu caro rapaz, você também pode aceitar suas onze esposas (Dhi, Dhriti, Rasala, Uma, Niyut, Sarpi, Ila, Ambika, Iravati, Svadha e Diksha), e uma vez que você é um dos mestres das entidades vivas, pode multiplicar a população em grande escala”.
Brahmá deu a Rudra os seguintes locais para residir: o coração, os sentidos, o ar vital do corpo, o céu, o ar, o fogo, a água, a terra, o sol, a lua e a austeridade. Rudra é descrito como sendo alto, forte, com cabelos longos e empunhando um tridente. Ele é o protetor da humanidade. Ele também é um excelente médico e tem inúmeros medicamentos que podem curar doenças (Siddha medicina).
Rudra gerou muitos filhos que a ele se assemelhavam na cor, força e natureza furiosa. Mas assim como Rudra, eram incontroláveis e desejavam destruir todo o universo, incluindo o próprio senhor Brahmá. Este, então, interveio e pediu a Rudra que parasse de gerar filhos dessa natureza e que praticasse austeridades para controlar seus sentidos. Rudra aceitou o conselho de seu pai e foi para a floresta executar penitências severas.
“Shiva diz: ‘Da Suprema Personalidade de Deus surge o Senhor Brahmā, cujo corpo é todo feito da energia material, o reservatório de inteligência predominado pelo modo da paixão (rajas). Do Senhor Brahmā, eu mesmo nasci como uma representação do falso ego, conhecido como Rudra. Pelo meu próprio poder eu crio todos os outros semideuses, os cinco elementos e os sentidos. Portanto, adoro a Suprema Personalidade de Deus, que é maior do que qualquer um de nós e sob cujo controle estão situados todos os semideuses, elementos materiais e sentidos, e até mesmo o Senhor Brahmā e eu mesmo, como pássaros amarrados por uma corda. É somente pela graça do Senhor que podemos criar, manter e aniquilar o mundo material. Portanto, ofereço minhas respeitosas reverências ao Senhor Supremo.” (Srimad Bhagavatam 5.17.22-23)
Outros nomes de Shiva incluem Dakshinamurti, ou o mestre universal; Trilochana (Três-olhos), Nila-kantha (Garganta-azul), Pancha-anana (Cinco faces), Chandrashekhara (Lua-crescente), Gangadhara (Portador do Ganga), Girisha (Senhor da montanha), Jatadhara (Cabelo emaranhado), Sthanu (Imutável), Visvanatha (Senhor do mundo material), Bhairava (Terrível), Bhutesha ou Bhuteshvara (Senhor dos fantasmas ou elementos materiais), Hara (Removedor da morte), Shambhu (Morada da alegria), Shankara (Doador da alegria), Bhava (Matéria), Mahadeva (Grande Deus), Ashani (Raio), Isha ou Ishana (Governante), Pashupati (Senhor dos animais), Mritunjaya (Conquistador da morte), Aghora (Destemido), Ugra (Medo), Bhima (Formidável), Rudra (Senhor das lágrimas), Nataraja (Rei dos dançarinos) etc. Os 1000 nomes de Shiva podem ser encontrados no capítulo 17 do Anushasana Parva do Mahabharata, bem como no Linga Purana 1.65-98.
Sempre ao lado de Shiva está o seu touro Nandi (que significa bem-aventurado) e representa força e virilidade. Ele é colocado na frente dos templos de Shiva para protegê-lo.
Destruição
O senhor Shiva é frequentemente retratado fazendo sua dança Tandava da destruição. Ele é visto como um dançarino exímio, com quatro braços, uma perna para cima e um pé sobre uma pequena criatura chamada de Apasmara-purusha. Em duas de suas mãos ele segura o tambor damaru e o fogo. O tambor representa o som que é transportado pelo éter, simbolizando o início da criação. O fogo representa o Pralayagni, ou o fogo da destruição universal. Assim, Shiva detém os símbolos da criação e aniquilação cíclicas. As outras duas mãos representam proteção e bênção para aqueles que se refugiam nele ou em seu ensinamento espiritual.
O Apasmara-purusha simboliza a ignorância que nos faz sucumbir diante da morte e perder a clareza e a consciência da nossa identidade real enquanto almas eternas. Shiva está dançando sobre a ignorância, numa clara demonstração de como ele pode conceder conhecimento transcendental.
Este processo cíclico de destruição, acontece parcialmente ao final de 1.000 ciclos de quatro yugas, ou um dia de Brahmá, e totalmente ao final da vida de Brahmá que dura mais de 315 trilhões de anos. Como explicado no Vishnu Purana 6.3.4, haverá uma grande escassez de alimentos por 100 anos, fazendo com que todos os seres se tornem fracos e lentos, e finalmente pereçam completamente. Em seguida, o Senhor Vishnu assume o aspecto de Rudra, o destruidor, e desce para reunir todas as suas criaturas dentro de Si mesmo. Ele entra nos sete raios do sol, fazendo com que toda a água contida nos oceanos, rios, solos e seres vivos evapore completamente. A Terra parecerá com o casco de uma tartaruga. Alimentados com tanta umidade, os sete raios se dilatarão e criarão sete sóis, cuja irradiância brilhará por todos os três sistemas planetários, incendiando-os completamente.
Em seguida, o Senhor Vishnu, na forma de Rudra, que é o fogo do tempo, destruidor de todas as coisas, torna-se o sopro escaldante de Ananta Shesha (uma expansão de Vishnu como uma serpente de milhares de cabeças), e reduz o sistema planetário inferior de Patala às cinzas. A grande lareira fará o seu caminho através do universo e a Terra também será consumida. Um vasto redemoinho de fogo se espalhará para o sistema planetário superior dos semideuses, destruindo-o completamente. O incêndio cósmico durará 36 mil anos.
O Brahma Purana 12.4.16 explica que é o imperecível Senhor Krishna, que assume a forma de Rudra para trazer todos os elementos e seres vivos de volta para Si mesmo no processo de aniquilação.
Em seguida, na forma de Nataraja, Shiva dá início à dança da dissolução, Ananda-tandava, ao som de seu tambor. No momento da dissolução, o cabelo de Shiva é dispersado e ele perfura os guardiões das diferentes direções com seu tridente. Ele ri e dança com orgulho, balançando suas mãos como bandeiras. Após finalizar a etapa do fogo, o senhor Shiva faz com que o universo inteiro seja coberto por nuvens de chuva, inundando-o completamente por 36 mil anos. Assim, todos os cinco elementos são extintos um por um, ao dissolverem-se no anterior.





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