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Lacto-vegetarianismo

Atualizado: 14 de abr.

A tradição védica é lacto-vegetariana, pois tem como princípios fundamentais a adoração às vacas e a não-violência contra qualquer ser vivo. Mas também há outros dois motivos que podem levar uma pessoa a adotar o vegetarianismo: cuidar da própria saúde e cuidar da saúde do planeta. No entanto, a compaixão pelos demais seres vivos deve ser prioridade, pois mesmo que o consumo da carne fosse muito bom para a saúde humana e para o equilíbrio do planeta, não o seria para a vida dos animais abatidos. Isto significa que nossa principal preocupação deve ser o bem-estar do próximo e não o nosso próprio.


Todos os dados estatísticos sobre o impacto negativo da produção e consumo de carne já estão publicados em inúmeros sites e sua busca é de muito fácil acesso. Portanto, não se faz necessário aqui apresentá-los, para não tornar este artigo longo demais. Aqui me limitarei a descorrer sobre o aspecto espiritual, que é pouco explorado tanto pelo o público leigo, quanto por lacto-vegetarianos e veganos em geral.


Em sânscrito, o sinônimo de vegetariano é niramis, que significa 'sem carne', ou seja, a tradição védica considera o lacto-vegetarianismo como o modelo ideal de sociedade. Outro exemplo importante é o significado em sânscrito para a palavra carne, que é mamsa, que significa 'aquele que eu como hoje, amanhã poderá me comer'. Com isto fica claro que a cadeia de ação e reação existente no consumo da carne de qualquer animal, já prevê que este animal terá o direito de se vingar de seu agressor, na próxima vida.

Toda a estrutura da sociedade védica está baseada na relação de serviço entre as espécies, sendo o ser humano o principal articulador dessa rede, posto que é o único capaz de servir a Deus conscientemente. Isto quer dizer que é dever do ser humano ocupar as demais espécies no serviço a Deus, permitindo que esses indivíduos possam gerar méritos espirituais capazes de lhe conceder um nascimento humano na próxima vida. Os Vedas explicam que Deus deve sempre estar no centro da sociedade como o objeto final da adoração de todas as entidades vivas. Isto significa que tudo deve ser oferecido a Ele na forma do serviço devocional amoroso, o qual só é possível de ser executado quando se tem um corpo humano.


Sendo assim, apenas tonar-se vegetariano não é tudo. É preciso compreender o verdadeiro papel da alimentação em relação direta com o propósito da vida. Qual a finalidade de mantermos um corpo saudável e, consequentemente, qual a melhor maneira de utilizarmos nossa energia e saúde? No Srimad Bhagavatam 1.2.10 está dito:

kamasya nendriya-pritir

labho jiveta yavata

jivasya tattva jijnasa

nartho yas ceha karmabhih 

"Os desejos da vida humana nunca devem ser direcionados para a gratificação dos sentidos. Deve-se desejar somente uma vida saudável, ou a autopreservação. Uma vez que o nascimento humano destina-se exclusivamente à indagar sobre a Verdade Absoluta, nada mais deveria ser o objetivo de nossos esforços”.

Obter um nascimento humano é muito raro e, portanto, devemos utilizar nossos sentidos e mente no serviço a Deus. Tudo o que foi criado, incluindo nossos sentidos, corpo e mente, pertencem a Deus e devem ser utilizados em Seu serviço e para Sua satisfação exclusiva. Mesmo que tenhamos acesso a um alimento puro, orgânico e livre da exploração animal, ainda assim existem impurezas mais sutis, como carmas e pecados, que só poderão ser removidos quando o alimento for oferecido a Deus. Quando cultivamos a terra, estamos inadvertidamente matando vários seres e, dessa maneira, incorremos em pecado. Além disto, o meio de produção deste alimento pode também ter envolvido indiretamente alguma exploração humana ou animal. Portanto, mesmo que Deus tenha recomendado que nos alimentemos somente de frutas, vegetais e leite, se não oferecermos estes alimentos a Ele, estaremos contribuindo para a manutenção de uma cadeia de carmas negativos.

No Bhagavad-gita 3.13-15, Krishna afirma: “Os devotos do Senhor são liberados de todos os tipos de pecados porque se alimentam somente daquilo que foi oferecido a Ele. Os outros, que preparam o alimento para o gozo do sentido pessoal, comem somente o pecado. Nos Vedas estão prescritas as atividades reguladas e os Vedas são diretamente manifestados pela Suprema Personalidade de Deus.


Consequentemente, a transcendência que tudo permeia está eternamente situada no ato da oferenda do alimento”. Por este motivo, o alimento oferecido a Deus é chamado de anna-brahma (alimento transcendental) ou prasada (misericórdia divina). O alimento que foi oferecido a Deus se torna completamente livre de qualquer contaminação material e devido a seu poder espiritual é capaz de limpar todos os nossos carmas e nos libertar do ciclo de nascimentos e mortes. Portanto, qualquer alimento que venhamos a consumir, deverá antes ser oferecido a Deus.  Algumas tradições aconselham agradecer pelo alimento antes de comer. Isso é bom, mas não é suficiente. Devemos oferecer o alimento a Deus como se de fato Ele fosse comer. O ciclo da vida começa em Deus e deve se encerrar nEle.

           

No Bhagavad-gita 9.27, Krishna diz para oferecermos ao Senhor tudo o que comemos, os nossos sacrifícios, os frutos do nosso trabalho e finalmente nossa própria vida e alma. Só assim poderemos desenvolver amor imaculado por Ele e alcançar Sua morada eterna. No Bhagavad-gita 17.8-9-10, Krishna explica: “Os alimentos no modo da bondade (satvicos) aumentam a duração de vida, purificam a existência e dão força, saúde, felicidade e satisfação. Estes alimentos saborosos e nutritivos incluem grãos, laticínios, frutas e legumes”.


Não basta apenas cuidarmos da saúde, preservarmos o meio-ambiente e protegermos os animais; tudo isto é apenas um complemento à vida humana, cujo verdadeiro significado é fazermos o que nenhum outro ser pode fazer: religião. Ou seja, amar, servir e adorar a Deus.

Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança com a finalidade de permitir que a alma possa expressar sua natureza eterna, através do serviço devocional, Bhakti-yoga. E a expressão maior deste amor consubstancia-se no serviço a Deus. Esta é uma prerrogativa exclusiva do ser humano e de nenhuma outra espécie. Portanto, ser humano significa oferecer a Deus tudo aquilo que possuímos e aceitar Sua misericórida na forma de Seus remanentes.

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