Vedanta
- Svami Mahavir

- 25 de nov. de 2019
- 24 min de leitura
Atualizado: 16 de abr.
sac-chid-ananda-rupaya krishnayaklishta-karine
namo vedanta-vedyaya gurave buddhi-sakshine
(Gopala-tapani Upanishad 1.1)
“Ofereço minhas reverências a Shri Krishna, que é a personificação da eternidade, conhecimento e bem-aventurança; que é o principal sujeito descrito no Vedanta; que sem esforço algum cria, mantém e destrói todo o universo; que liberta Seus devotos dos cinco tipos de sofrimentos, começando pela ignorância; e que é nosso guru. Como guru, Ele ilumina a inteligência de todos e é a testemunha absoluta de nossas atividades.”
Por mais complicado que possa parecer, o Vedanta não se propõe ao exercício da
filosofia analítica ou da lógica, muito menos é um tratado sobre a teoria do conhecimento, ou ainda um alfarrábio litúrgico. O Vedanta é, antes de tudo, uma experiência real de amor divino que a alma pode experimentar através da devoção pura ao Senhor Supremo. Portanto, o Vedanta é a consumação do nosso relacionamento eterno com Krishna, com a Verdade Absoluta, que nos é revelado através da liturgia primogênita, conhecida historicamente como Vedas.
Vedanta significa a essência ou a conclusão dos Vedas, e seu estudo sistematizado nos revela que a função eterna da alma é amar e servir o Senhor Supremo. Em todo relacionamento, pressupõe-se a relação entre no mínimo duas pessoas. Baseado nisto, o Vedanta nos apresenta quem é a Pessoa Suprema com a qual devemos nos relacionar através do processo de Bhakti-yoga: União com Deus através do serviço devocional.
O Vedanta parte do princípio de que somos cada qual uma alma individual, única, eternamente distintas umas das outras e de Deus, e cuja natureza intrínseca é amar. Porém, este potencial para amar só encontra sua expressão máxima quando direcionado exclusivamente para o serviço amoroso prestado ao Senhor Supremo. É somente em contato com a Pessoa Suprema que a alma tem a oportunidade de expressar todo este potencial.
A inclinação inata da alma para amar e servir ao Senhor Supremo é chamada de
Dharma. E a expressão dessa individualidade, no que diz respeito à poética deste Dharma, é o modo único e insubstituível pelo qual cada um de nós pode prestar este serviço. Todos temos um propósito superior na vida, um talento especial que desejamos compartilhar com o mundo. No entanto, este talento único só
alcança a perfeição máxima quando empregado no serviço a Pessoa Suprema, a qual recebe o nome de Krishna. É servindo a Krishna que nos será concedida a chance de experimentarmos a plenitude de nossa própria razão de ser e existir.
Os ensinamentos do Vedanta se destinam a nos ajudar a compreender este Dharma eterno, como o desdobramento da perfeição – quando tudo o que pensamos, dizemos ou fazemos, serve exclusivamente ao propósito mais elevado de amar e servir a Suprema Personalidade de Deus, Krishna. Amor é um verbo transitivo. Quem ama, ama alguém. Por isso, dizer que todos somos um ou somos Deus, aniquila automaticamente a possibilidade de amar e servir, posto que só haverá um sujeito sem objeto algum. No entanto, o Vedanta nos explica que, em
toda a existência, só há um Sujeito e que todos nós somos Seus objetos relativos.
Infelizmente, são muitos os autores que descrevem o Vedanta como uma filosofia
que prega a unidade indistinta entre a alma e Deus, como se ambos fossem o mesmo ser, apenas aparentemente separados pelo véu da ilusão. No entanto, o que o Vedanta-sutra e as demais escrituras védicas nos ensinam é que nós e Deus possuímos uma natureza inconcebivelmente igual e diferente ao mesmo tempo. Ou seja, igual em qualidade, mas distinta em quantidade. Assim como a faísca cuja natureza possui as mesmas qualidades do fogo, porém em uma quantidade ínfima.
Brahmá, o criador deste Universo recebeu este conhecimento de Krishna e o
transmitiu a seu discípulo Nárada-muni, que por sua vez o transmitiu a Vyasa-deva, que revelou todo esse conhecimento na forma dos quatro Vedas, Upanishads, Puranas e do Vedanta-sutra. Esses três grandes mestres ficaram famosos por serem exemplos vivos de devoção e serviço a Krishna, sempre pontuando em seus ensinamentos a necessidade de nos tornarmos servos do Senhor Supremo e jamais pensarmos que somos Ele ou que Ele não possui uma forma e personalidade transcendentais. Antes de definirmos o caráter de uma obra, devemos conhecer o caráter de seu autor. Brahmá, Nárada e Vyasa-deva jamais declararam ou demonstraram por qualquer ato ou palavra, que nós somos o próprio Ser Absoluto e que Este é desprovido de forma em Seu aspecto mais completo e original.
O centro de gravidade do ser é o coração, porque é ali onde a alma reside. Portanto, o Vedanta será compreendido somente por aqueles que conhecem a linguagem do amor. Aqueles que tentarem se aproximar do Vedanta por intermédio da mente analítica, ou jñana, jamais serão capazes de compreendê-lo, como bem explica o sutra ‘tarkapratisthanath’, no qual Krishna diz: “Ó meu bom rapaz, não é através da lógica e da deliberação que se pode conhecer a Verdade Absoluta, mas apenas é concedida tal oportunidade para quem Ela
mesma escolhe Se revelar”.
Os ensinamentos do advaita-vedanta foram transmitidos por grandes mestres como Srila Ramanuja Acharya, Srila Madhva Acharya, Srila Rupa Gosvami, Srila Jiva Gosvami, Srila Baladeva Vidyabhusana Prabhu, Srila Bhakti Prajñana Keshava Gosvami Maharaja, Srila AC Bhaktivedanta Svami Prabhupada e Srila Bhakti Vedanta Narayana Gosvami Maharaja, e está sendo protegido até hoje através da sucessão discipular da Sri Brahma Madhva Gaudiya Sarasvata Sampradaya.
Vedanta-sutra
A palavra Vedanta é composta por duas palavras: Veda, que se refere aos quatro
Vedas (Atharva, Rg, Yajur e Sama), aos Upanishads, Puranas, Samhitas, Bhagavad-gita etc, e Anta, que significa fim, ou a conclusão final dos Vedas.
Sutra significa aforismo, um pequeno link, ou seja, poucas palavras que expressam uma grande verdade.
O Vedanta-sutra, também conhecido como Brahma-sutra, foi escrito em adhikaranas (silogismos védicos) que consistem de cinco partes: 1. Visaya (tese, ou declaração); 2. Samsaya (visão da dúvida sobre a declaração); 3. Purvapaksa (apresentação de uma declaração de oposição à tese); 4. Siddhanta (determi
nação da verdade real, a conclusão final, pela citação de escrituras Védicas) e; 5. Sangati (confirmação da conclusão final pela citação de referências encontradas nas escrituras védicas).
O Vedanta-sutra descreve cinco tattvas (verdades): 1. Isvara (a Suprema
Personalidade de Deus); 2. jiva (entidade viva individual ou alma); 3. prakrti (matéria); 4. kala (tempo) e; 5. karma (ação).
athato brahma jijnasa - “Agora, portanto, devemos indagar sobre o Brahman.”
(Vedanta-sutra 1)
“Devo agora questionar acerca da Suprema Personalidade de Deus, como está descrito nos Upanishads.”
(Brhad-aranyaka Upanishad 9.21)
“Ó Maitreyi, deve-se ver, ouvir, lembrar e indagar sobre a Suprema Personalidade de Deus.”
(Brhad-aranyaka Upanishad 2.4.5)
“Apenas tente aprender a verdade aproximando-se de um mestre espiritual. Questione-o submissamente e preste-lhe serviço. A alma auto realizada pode transmitir-lhe conhecimento transcendental, pois viu a Verdade.”
(Bhagavad-gita 4.34)
Aqui, podemos constatar que a busca pela Verdade não deve ser um esforço
solitário. É necessário ter um guia, ou mestre espiritual fidedigno, versado nas escrituras e conhecedor dessa Verdade, a fim de que esta nos possa ser revelada.
Os Vedas apresentam três formas de se obter conhecimento: pratiaksha (percepção sensorial); anumana (inferência); e sabda (conhecimento revelado pelos Vedas ou pelo mestre espiritual).
Se considerarmos que a percepção sensorial é limitada e que a inferência também
depende desta, concluímos que a única maneira de conhecermos a verdade é ouvindo-a do mestre espiritual ou lendo-a nos Vedas. Portanto, a leitura livre dos Vedas não é recomendada, pois se vale apenas de nossa parca inteligência. A melhor opção é depender exclusivamente da orientação de um mestre fidedigno.
sastra yonitvat - “Porque Ele só pode ser conhecido pela revelação das
escrituras védicas.”
(Vedanta-sutra 3)
Esse processo chama-se apaurusheya. O conhecimento transcendental deve ser
revelado. Ele não pode ser controlado ou conquistado pelos sentidos imperfeitos.
“A lógica é empregada para resolver aparentes contradições nos textos védicos.
Mas a lógica seca, sem referência à revelação escritural, deve ser abandonada.”
(Brhad-aranyaka Upanishad 4.5)
Vyasa Deva, o autor dos Vedas
Em Dvapara-yuga, os Vedas foram destruídos. Então, a Suprema Personalidade de Deus, em resposta às orações de Brahmá e outros semideuses perplexos, descendeu como Krishna Dvaipayana Vyasa Deva, que restaurou os Vedas, os dividiu em 4 partes e compôs o Vedānta-sutra para explicá-los.
Isso está descrito no Skanda Purana:
krsna dvaipayana vyasam viddhi narayanam prabhum
“Entendam que Krishna Dvaipayana Vyasa é de fato a Suprema Personalidade de
Deus, Narayana.”
Srila Vyasadeva, o compilador do Veda original, dividiu-o em quatro partes de
acordo com o assunto. Primeiro, havia apenas o Atharva Veda, que foi dividido entre o Rg, Yajur e Sama Vedas. Então, para conciliar as aparentes diferenças entre os mantras dos diferentes Vedas e a fim de mostrar que não há conflito entre os mesmos, ele compôs o Vedanta-sutra. Uma vez que o Vedanta-sutra era de difícil compreensão para as pessoas comuns, ele compôs os Upanishads, os Puranas e o Mahabharata, tornando cada vez mais acessível a mensagem do Vedanta-sutra para o público em geral.
Mesmo após ter manifestado toda a literatura védica, direta ou indiretamente
(através de discípulos), Srila Vyasadeva apresentava profunda insatisfação e inquietude; ele não estava feliz. Então, seu mestre espiritual, Sri Narada Rishi foi até ele e disse: “Você escreveu sobre dharma (atividade piedosa), artha (desenvolvimento econômico), kama (gratificação dos sentidos) e moksa (liberação), mas não descreveu os doces passatempos do Senhor Supremo. É por esta razão que sua mente está perturbada e você não está feliz. Você deve entrar em samadhi-yoga (transe) e meditar nos passatempos do Senhor Krishna”.
Srila Vyasadeva seguiu as ordens de seu mestre espiritual e, por sua misericórdia, foi capaz de ver os passatempos do Senhor Krishna. Em seguida, descreveu esses passatempos, para o benefício da população em geral, na obra intitulada Srimad Bhagavatam.
No Garuda Purana, o Srimad Bhagavatam é glorificado da seguinte forma:
“Este Srimad Bhagavatam é o comentário natural do Brahma-sutra. É o significado conclusivo do Mahabharata. É a personificação do gayatri-mantra e explica e reforça o significado essencial dos Vedas. Portanto, o Srimad Bhagavatam, escrito pelo próprio Sri Vyasadeva, é o comentário real e transcendental, sem precedentes, do Vedanta-sutra.”
O Chandogya Upanishad (3.15.7) afirma que os Puranas são “o quinto Veda” e o Srimad Bhagavatam é um Purana. Portanto, diante das evidências supracitadas, só nos resta aceitar o fato inegável de que o Srimad Bhagavatam é o comentário natural do Vedanta, escrito por seu próprio autor, Vyasa-deva.
“Não tente compreender o significado de uma declaração sem primeiro conhecer
quem é o autor da mesma.”
(Kausitaki Upanishad 3.8)
Devido à sua natureza divina e autoria única, os Vedas não podem ser aceitos
parcialmente. Isso implica que, ou aceitamos completamente, ou rejeitamos por completo.
"Os quatro Vedas - ou seja, o Rg-Veda, Yajur-Veda, Sama-Veda e Atharva-Veda - foram todos emanados da respiração da Suprema Personalidade de Deus."
(Brhad-aranyaka Upanishad 2.6.10)
Comentadores
Durante os últimos séculos, a grande maioria das pessoas tem aceitado que o único comentário do Vedanta-sutra é o de Sripad Shankaracharya, apresentado através da escola Advaita ou mayavada. O comentário de Shankaracharya é chamado Sariraka-bhasya, e muitas pessoas pensam que a filosofia exposta por ele traduz o verdadeiro significado do Vedanta-sutra. No entanto, isso é um equívoco. Ramanuja Acharya, Madhva Acharya, Baladeva Vidyabhusana, dentre muitos outros, também comentaram o Vedanta-sutra, estabelecendo os fundamentos da escola Dvaita, ou dualista.
O comentário de Sripad Ramanuja Acharya chama-se Śrī-bhasya; o de Sripad
Madhva Acharya, Anubhasya; e o de Sripad Baladeva Vidyabhusana, Govinda-bhasya. Os comentários de Sripad Ramanuja e Sripad Madhva estão baseados em um princípio denominado vastu-parinama-vada, ou seja, que tudo o que existe é uma transformação direta do Ser Supremo, enquanto que o comentário de Sripad Baladeva Vidyabhusana está baseado no princípio denominado shakti-parinama-vada, ou seja, que tudo o que existe é uma transformação das diferentes potências do Ser Supremo, e não dEle mesmo.
O conceito shakti-parinama-vada foi revelado pela primeira vez por Sri Chaitanya Mahaprabhu, como a base de sua filosofia chamada Achintya-bhedabheda, ou a inconcebível semelhança e diferença simultâneas entre a alma e Deus. Foi somente através de Sri Chaitanya Mahaprabhu que a escola Dvaita (lê-se Dueita) pôde alcançar seu potencial máximo. Sri Chaitanya Mahaprabhu é o próprio Krishna, então, o que quer que Ele apresente, é o mais puro reflexo do Vedanta. No entanto, Mahaprabhu não estava interessado em debates de lógica ou erudição, mas sim em propagar os princípios básicos da devoção pura, tal como apresentados no Srimad Bhagavatam, que é o comentário natural do Vedanta-sutra.
Embora não tenha deixado nada escrito sobre o assunto, Seus discípulos,
especialmente os seis Goswamis de Vrindavana, publicaram uma grande variedade de obras com os ensinamentos de Mahaprabhu, com destaque para os Sat-sandarbhas de Srila Jiva e o Bhakti-rasamrta-sindhu de Srila Rupa Goswami. Três séculos mais tarde, Sripad Baladeva Vidyabhusana também utilizou o mesmo conceito achintya-bhedabheda de Mahaprabhu para compor seu comentário do Vedanta-sutra, que acabou se tornando o comentário oficial da escola iniciática fundada por Mahaprabhu, chamada de Gaudiya.
De acordo com o Padma Purana, existem somente quatro escolas iniciáticas
autorizadas para transmitir os mantras védicos de diksha, ou iniciação espiritual:
“Qualquer mantra que não seja recebido através de uma das quatro escolas iniciáticas (Brahma, Rudra, Sanaka e Sri) é considerado inútil. Portanto, as personalidades divinas que inspiraram as quatro escolas iniciáticas (sampradayas) autorizadas são a Deusa Laksmi, o semideus Brahmá, o Senhor Shiva e os quatro Kumaras, liderados por Sanaka Rishi. Cada uma dessas escolas possui um fundador. Ramanuja foi escolhido pela Deusa Laksmi para
representar Sua sampradaya; Madhvacarya foi escolhido por Brahmá; Visnusvami foi escolhido por Shiva; e Nimbaditya foi escolhido pelos Quatro Kumaras.”
Sri Chaitanya Mahaprabhu foi iniciado dentro da Brahma-sampradaya e por isso Sua autoridade para criar a escola da Gaudiya é indiscutível. No entanto, até onde consta na história, Shankaracharya não pertencia a nenhuma das quatro sampradayas supracitadas, bem como todos aqueles que representam a escola Advaita (lê-se Adueita).
Shankaracharya (788 dC)
Autor do famoso comentário do Vedanta-sutra, intitulado Sariraka-bhasya, também comentou sobre os principais Upanishads e o Bhagavad-gita. Ao mesmo tempo em que escrevia seus comentários, Shankara atraía muitos seguidores e frequentemente debatia com adeptos de diferentes escolas de pensamento, principalmente com os Vaishnavas. Em seus comentários, Shankara advoga que o Brahman é a única realidade e que o universo que percebemos, caracterizado pela dualidade, é irreal. A alma individual, ou jiva, após alcançar a liberação, se torna alheia ao mundo das dualidades, se identificando com o Brahman Absoluto.
Todavia, esta alma individual se identifica com o mundo das dualidades pela influência da energia ilusória, maya, considerando o mundo material como sendo real, assim como alguém na escuridão pode confundir uma corda com uma cobra. Shankaracharya considera que a perfeição pode ser alcançada através do estudo sistemático de seu comentário do Vedanta, de práticas devocionais e austeridades, com o objetivo de se livrar da ilusão superimposta à alma e se fundir no Brahman, que seria destituído de toda sorte de atributos, atividades e individualidade.
A filosofia de Shankaracharya certamente não corrobora com os textos védicos
originais e por isso não parece atrativa aos teístas, que entendem que a perfeição da vida é ingressar no Reino de Deus (Vaikuntha) e lá servi-lO eternamente. Deus e a alma são eternamente distintos, mas se unem através do serviço devocional amoroso, o que é de modo geral a teologia das grandes tradições monoteístas do mundo e também a teologia Vaishnava, expressa em obras como o Bhagavad-gita e o Srimad Bhagavatam.
Analisemos, agora, alguns versos que preveem as atividades de Shankaracharya e revelam sua verdadeira identidade e propósito. Ele foi nomeado como Shankara por ser uma encarnação do Senhor Shiva.
No Padma Purana, Uttara-khanda 62.31, encontramos as seguintes declarações do Senhor Shiva à Parvati:
“A filosofia mayavada é contrária às escrituras. Trata-se de um budismo encoberto. Minha querida, em Kali-yuga, assumo a forma de um brahmana e ensino a filosofia mayavada. A fim de enganar os ateístas, descrevo a Suprema Personalidade de Deus como sendo sem forma e sem qualidades. Similarmente, ao explicar o Vedanta, descrevo a mesma filosofia mayavada de modo a desorientar toda a população para o ateísmo, negando a forma pessoal do Senhor.”
“Minha querida esposa, ouve minhas explicações acerca de como propagarei a
ignorância através da filosofia mayavada. Simplesmente por ouvir essa filosofia, mesmo um erudito avançado cairá. Com tal filosofia, que é certamente muito inauspiciosa para as pessoas em geral, interpreto erroneamente o verdadeiro significado dos Vedas e recomendo que todas as atividades sejam abandonadas como forma de obtenção da liberdade do carma. Nessa filosofia, descrevo que a alma e a Superalma são idênticas.”
O Senhor Shiva faz isso não apenas uma vez, mas diversas vezes, haja vista que há outros Puranas em que o Senhor Shiva diz que o fará em outras eras. No Shiva Purana, o Senhor Supremo pede a Shiva que faça o mesmo em Dvapara-yuga:
“Em Dvāpara-yuga, ilude as pessoas em geral apresentando significados
imaginários aos Vedas de modo a desorientá-las.”
Aqui, Shiva aparece como um devoto de Krishna, como acontece, na verdade, em
todas as escrituras védicas, sobretudo quando analisadas imparcialmente. No fundo, a devoção esteve sempre presente na vida de Shankaracharya, que compôs belos versos em louvor ao Senhor Krishna, chamando-O de o Senhor Supremo Govinda, a Bem-aventurança Suprema etc.
Shankara também aceitou declaradamente a autoridade do Bhagavad-gita ao glorificá-lo em suas orações. Essas duas obras são as que mais claramente exaltam o aspecto pessoal da Verdade Absoluta e o serviço devocional eterno ao Senhor Krishna. Neste ponto, você talvez se pergunte: Por que Shiva, o maior dos devotos de Krishna, teria o desejo de deturpar a conclusão védica de que o serviço devocional a Krishna é a meta última da existência? A resposta parece mais simples do que deveria ser: foi o próprio Krishna quem o instruiu a propagar tal teoria, como está descrito no Padma e Varaha Puranas:
“Através de sua própria escritura forjada, faça as pessoas se tornarem adversas a
Mim e Me oculte, para que assim a população possa aumentar perpetuamente.”
Com o avanço da era de Kali, os rituais védicos foram corrompidos pelos brahmanas que, a pretexto de seguirem princípios religiosos, começaram a sacrificar animais simplesmente para consumir a sua carne. Então, para evitar que a carnificina continuasse, o avatar Buddha descendeu há aproximadamente 3500 anos, com a missão de acabar com os rituais védicos. Desse modo, o avatar Buddha estabeleceu o budismo, baseado nos princípios da ahimsa (não violência, compaixão) e transformou milhões de carnívoros em vegetarianos.
Mais tarde, aparece na cena budista o príncipe Siddharta Gautama (Sakhya Singha), que estabeleceu o princípio filosófico niilista, ou sunyavada, baseado na prática do vipassana, ou meditação silenciosa de observação da respiração, com o objetivo de cessar as atividades mentais. Ele recebe o título de Gautama por ser esse o nome de seu mestre, o famoso ateísta Gautama Rishi. Com o passar do tempo, os dois Buddhas acabaram sendo confundidos e, hoje em dia, poucos sabem da existência do Buddha avatar e creem que Sakhya Singha seja o fundador do budismo. (Para saber mais, leia o artigo Shankaracharya e os Dois Buddhas)
Eles são chamados de mayavadis porque consideram que maha-maya, mesmo sendo um subproduto de Brahman, pode iludí-lo, porque as jivas são consideradas como sendo o próprio Brahman e estão sujeitas à ilusão de maya enquanto não percebem sua identidade original como Brahman. Seguindo essa lógica, os mayavadis se utilizam da técnica conhecida como neti neti, sempre dizendo que o Brahman não é isto nem aquilo, mas sim o que sobra depois que tudo for negado. É como um budismo disfarçado.
“Deus não é isto, não é aquilo (neti neti). Não há nenhuma outra descrição mais
apropriada de Deus.”
(Brhad-aranyaka Upanishad 2.3.6)
Maha-maya é uma energia relativa que está subordinada ao Brahman absoluto, logo, jamais poderia iludi-lo, assim como um mágico jamais é iludido por sua própria mágica. O que Maya pode fazer é apenas torná-Lo oculto, iludindo aqueles que O invejam.
“Eu não Me manifesto para todos. Eu Me oculto com minha maya de modo que os tolos não possam Me compreender como O não nascido e infalível.”
(Bhagavad-gita 7.25)
Shankaracharya, então, teve a missão de reconverter os budistas de volta ao vedanta. Por esse motivo, ele cria a teoria mayavada que se assemelha ao budismo, para facilitar a associação de ideias entre ambos, principalmente em relação ao conceito de fundir-se no Brahman e o nirvana. Em ambos, isto representa o estágio final de fusão e unidade indistinta do ser com o Todo Absoluto.
Shankaracharya foi extremamente bem-sucedido na reconversão de milhares de budistas ao vedanta, bem como na expulsão definitiva do budismo niilista da Índia. Mas isso só foi possível porque ele deturpou o sentido original das escrituras védicas, para que coubessem dentro da moldura budista.
Um dos pontos mais criticados em seu comentário do Vedanta-sutra, foi sua declaração de que o sutra “ananda-maya-bhyasat”, foi um equívoco de Srila Vyasa-deva, pois o Brahman não pode apresentar bem-aventurança por ser desprovido de transformações. Portanto, o comentário do Vedanta-sutra escrito por Shankaracharya é absolutamente uma obra de sua imaginação. Não há uma verdade sequer ali presente que corresponda ao Vedanta-sutra de Vyasa-deva.
Sri Chaitanya Mahaprabhu (1486 dC)
Sri Chaitanya Mahaprabhu, conhecido também como o Avatar Dourado, descendeu há pouco mais de quinhentos anos na ilha de Mayapura, Bengala Ocidental, como a encarnação mais magnânima de Krishna. No começo de sua juventude, Mahaprabhu se tornou um professor de lógica e conquistou a vitória em debates públicos sobre os maiores eruditos em nyaya.
Aos vinte e quatro anos de idade, já reconhecidamente o maior erudito de nyaya de Sua época, Mahaprabhu renunciou à vida familiar e aceitou a ordem renunciada de sannyasi, passando a se dedicar exclusivamente à adoração do Senhor Supremo Krishna através de bhakti-yoga e abandonando por completo o nyaya.
Mahaprabhu estabeleceu que a conclusão original do Vedanta está baseada no conceito de achintya-bheda-abheda (ABA), ou a inconcebível diferença e semelhança simultâneas entre a alma individual e o Senhor Supremo. Por causa do excelente serviço prestado por Shankaracharya, Sri Chaitanya Mahaprabhu foi capaz de reestabelecer a supremacia de bhakti-yoga pura, tendo em vista que os princípios védicos mais básicos já haviam sido adotados pelas massas, bem como os princípios devocionais estabelecidos pelos quatro Vaishnavas Acharyas (Ramanuja, Madhva, Vishnu Swami e Nimbaditya).
Assim, com o auxílio dos Seis Gosvamis de Vrndavana (Rupa, Sanatana,
Raghunatha dasa, Gopala Bhatta, Raghunatha Bhatta e Jiva) Mahaprahu defendeu que Deus é simultaneamente igual e distinto das almas: é igual em qualidade, porque ambos são compostos de sat-cit-ananda, mas ao mesmo tempo é distinto em quantidade, porque Deus é infinito e onipotente, enquanto que as almas são infinitesimais e limitadas.
Mahā-vakyas
Abaixo seguem os sete mahā-vakyas (grandes provérbios) de Shankaracharya:
1. Brahma satyam jagan mithya – o Brahman é real e o mundo é irreal;
2. Ekam evadvitiyam brahma – o Brahman é indivisível;
3. Prajñanam brahman – o Brahman é o conhecimento supremo;
4. Tat tvam asi – Você é este Brahman;
5. Ayam atma brahma – Atman e Brahman são o mesmo;
6. Aham brahmasmi – Eu sou o Brahman;
7. Sarvam khalvidam brahma – Tudo que existe é o Brahman.
Verifiquemos, contudo, se essas definições estão corretas. De acordo com o sânscrito, a palavra brahma pode significar o Ser Supremo, a alma individual, ou simplesmente aquilo que é espiritual, de acordo com o contexto. Por exemplo,
encontramos com frequência nos Vedas o termo anna-brahma, que significa alimento espiritual, e não que o alimento seja o próprio Brahman.
No entanto, a consideração mais importante a ser feita é em relação à explicação
que a gramática sânscrita dá aos superlativos. Se à palavra brahma for adicionado o prefixo param, que significa supremo, ele indicará que o Brahman a que se refere o texto, é o Brahman Supremo, ao qual nada se compara.
paraṁ brahma paraṁ dhāma pavitraṁ paramaṁ bhavān
puruṣaṁ śāśvataṁ divyam ādi-devam ajaṁ vibhum
(Bhagavad-gita 10.12)
Aqui, Arjuna chama Krishna de Parambrahma, isto é, a Suprema Personalidade de Deus. Arjuna diz que Krishna é o sustentáculo de tudo (param dhāma); que é o mais puro (pavitram paramam); que é uma pessoa divina eterna (sasvatam purusam divyan); que Ele é o Deus original (Adi-deva); que Ele é ‘não nascido’ (aja); e colossal (vibhu).
Se a palavra brahma for utilizada para se referir às almas individuais, então significa que param-brahma estará se referindo a Superalma. Por exemplo: isvara (controlador) e Paramesvara (Controlador Supremo); atma (alma) e Paramatma (Superalma). Além disso, o sânscrito apresenta a palavra Bhagavan que, mesmo sem o prefixo param, já denota Aquele que é o Supremo, Deus, o Criador, o Ser Absoluto, Aquele ao qual ninguém se iguala, o que dirá de superá-Lo. Os mayavadis atribuem demasiada importância aos mahā-vakyas que
contêm a palavra brahma, mas negligenciam os trechos nos quais os Vedas apresentam a palavra Bhagavan. Se nos textos originais encontramos várias declarações sobre a existência de uma Personalidade Divina Superior e inigualável, porque então daremos mais atenção às palavras de menor escalão?
“Ó Maitreya, a palavra Bhagavan refere-se ao Supremo Brahman, que está cheio de todos os poderes e opulências, a causa original de todas as causas, e a transcendência suprema, pura e sempre intocada pela matéria.”
(Visnu Purana)
ete cāṁśa-kalāḥ puṁsaḥ kṛṣṇas tu bhagavān svayam
“Krishna é a Suprema Personalidade e Deus. Todos os outros avataras são Suas
porções plenárias ou porções das porções plenárias.”
(Srimad Bhagavatam 1.3.28)
Neste verso, Vyasa Deva declara explicitamente que Krishna é Svayam Bhagavan, o próprio Deus Supremo. Esse é só um exemplo, mas existem centenas de outros versos indicando que Krishna é Bhagavan. Quando alguma personalidade recebe este título, não resta dúvida sobre sua posição na hierarquia dos deuses. Por exemplo, os semideuses como Brahmá ou Shiva recebem o título de isvara, mas nunca de Paramesvara ou Bhagavan.
janmady asya yatah - “Brahman é Aquele do qual tudo emana.”
(Sutra 2)
O Criador é eterno e dEle surge tudo o que é temporário. Se há um criador, este é diferente de sua criação. Por isso, tudo aquilo que pertence ao mundo material não pode ser igualado ao Brahman, bem como as almas que ali habitam. Outro argumento que pode ser apresentado é em relação ao contexto dos mahā-vakyas. Shankaracharya apenas extraiu trechos dos versos originais, tirando-os de contexto a fim de fazer com sua reinterpretação fizesse algum sentido. Então, analisemos alguns dos versos originais.
tat tvam asi sa ya eso nima etad atmyam idam sarvam tat satyam sa atma
“É nEle que tudo repousa. Tudo vem dEle. Ele é a realidade suprema. Ele é a
pessoa suprema. Você é igual a Ele.”
(Chandogya Upanishad 6.8.7)
sarvam khalv idam brahma taj jalan iti santa upasita atha khalu kratumayah
purusah yatha kratur asmin loke puruso bhavati tathetah pretya bhavati sa kratum kurvita manomayah prana-sariro bha-rupah satya-sankalpa akasatma sarva-karma sarva-kamah sarva-gandhah sarva-rasah sarvam idam abhyato avakyan adarah
(Chandogya Upanishad 3.14.1)
“O Brahman permeia tudo. Dele tudo emana. O sábio pacífico deve adorar Brahman com esta ideia. A Suprema Personalidade de Deus aceita o serviço devocional. Quando o serviço devocional é realizado neste mundo, a Suprema Personalidade de Deus está presente nele. De acordo com o serviço devocional executado nesta vida, se alcançará um destino apropriado após a morte. A Suprema Personalidade de Deus é conhecida por aqueles cujas mentes são puras. Ele é o controlador de toda a vida. Ele é resplandecente e glorioso. Cada um de Seus desejos é automaticamente satisfeito. Ele é todo-penetrante. Ele é o criador original de tudo. Ele satisfaz todos os desejos. Ele possui todas as fragrâncias agradáveis. Ele é todo doçura. Ele está presente em todos os lugares. Ele não pode ser descrito em palavras. Ele não pode ser conhecido. Tudo o que existe é uma transformação de Sua energia.”
Ao analisar a descrição completa dos versos supracitados, podemos ter uma ideia
clara de que o Brahman aqui se trata de uma Personalidade Eterna, com qualidades, atributos, atividades etc. Podemos também fazer referência à palavra purusha, que significa uma pessoa do gênero masculino.
“Deus é masculino e Sua shakti é feminina.”
(Brhad-aranyaka Upanishad 9.21)
Para os vaishnavas, Bhagavan ou Param-Brahman é uma pessoa masculina com todos os atributos e qualidades transcendentais. Diferente dos mayavadis que acreditam que o aspecto divino mais elevado é o Brahman impessoal e sem forma ou qualidades.
Escola Advaita (monista)
A explicação do Vedanta-sutra apresentada pela escola Advaita de Shankaracharya não está de acordo com a filosofia de Srila Vyasadeva, como já foi apresentado anteriormente. Distorcendo o significado de várias palavras, esta escola tentou apresentar sayujya-mukti (fundir-se com o Brahman) como a meta mais elevada. No entanto, no Srimad Bhagavatam, Srila Vyasadeva claramente revela que essa meta última e mais elevada é Bhakti.
Bhagavatam pramanam amalam yat vaisnavanam priyam – "o Srimad Bhagavatam é querido para os devotos Vaishnavas." Esta não é uma escritura para os não-devotos, portanto, a explicação do Vedanta apresentada pela escola Advaita não é autêntica. A escola Advaita é também conhecida como mayavada, pelo fato de seus seguidores afirmarem que o Brahman, mesmo sendo indivisível e onipresente, pode ser encoberto por maya e perder Sua própria identidade de Brahman.
O Senhor Shiva adjetiva a filosofia mayavada de asac chastram, isto é, ilegítima
segundo as escrituras, e também diz que é meramente imaginária. Uma vez
contextualizados os versos que originam a filosofia de Shankara, fica fácil perceber como ele imaginou os significados ausentes no texto. O próprio termo advaita, derivado do Chandogya Upanishad 6.2.1, não indica de modo algum que a alma individual e o Brahman sejam unos. Ao contrário, o termo indica
que no começo não havia outro senão o Ser Supremo, advaya para tattva jnana, que é a mesma declaração encontrada no Narayana Upanishad:
“No princípio da criação, somente existia Narayana. Não havia Brahmá, nem Shiva, nem fogo, nem Lua, nem estrelas no céu, nem Sol. Então, a Suprema Personalidade, Narayana, desejou criar as entidades vivas. De Narayana nasceu Brahmá, e de Narayana os patriarcas também nasceram. De Narayana nasceu Indra, de Narayana nasceram os oito Vasus, de Narayana nasceram os onze Rudras, de Narayana nasceram os doze Adityas.”
Assim, originalmente, advaita se refere a advaya, ou Aquele que não tem um
sucessor, ou seja, Aquele ao qual ninguém se iguala ou compara, que é Único. O Senhor Supremo cria tudo a partir de Si e é a base da existência. O Chandogya Upanishad 6.2.2 explica que o Ser Supremo é a fonte de tudo o que existe e que a existência não poderia surgir a partir do nada. Outro ponto apresentado por Shankaracharya é que Deus é asarira e akarana, sem forma e sem sentidos. No entanto, o verdadeiro sentido de asarira é “aquilo que não pode ser descartado”, e de akarana é “aquilo que não precisa de uma causa”. Logo, dizer que Deus é asarira e akarana, sem uma interpretação imaginativa, significa que: Ele tem um
corpo que jamais é descartado e que Ele não depende de nenhuma causa para existir.
Há outro ponto que devemos considerar. Nas escrituras, as palavras como nirguna (sem qualidades), nirakara (sem forma ou substância), arupa (sem forma ou beleza) e avyakta (não manifesto), não são palavras raiz. De guna (qualidade), vem nirguna (sem qualidade); de visesa (especialidade ou singularidade), nirvisesa (sem especialidade); de akara (forma e conteúdo), nirakara. É considerando que a forma existe, que podemos conceber a ausência de forma. A partir do manifesto, o imanifesto ocorre. Não poderíamos pensar no ateísmo sem que houvesse a existência do teísmo. Como não podemos pensar em algo que não exista, então, se pensamos em Deus é porque Ele existe, e se pensamos na forma é porque Ela existe.
É por isso que a definição de Deus dos Vedas não afirma que Ele tenha apenas um aspecto, seja o com forma ou o sem forma, mas sim que Ele possui ambos!!! Claro, pois se Lhe faltasse algo, Ele não seria completo. Mas os Vedas ainda vão mais além, revelando que há um terceiro aspecto de Deus localizado no coração de cada entidade viva e dentro de cada átomo, chamado Paramatma.
“Transcendentalistas eruditos que conhecem a Verdade Absoluta chamam-nA de a não dual substância Brahman, Paramatma e Bhagavan.”
(Srimad Bhagavatam 1.2.11)
Se Deus é completo, não pode haver nada que falte nEle, incluindo a forma, o nome, as qualidades e atividades. De acordo com uma simples lógica, toda derivação é redutiva e deve acontecer de um objeto mais complexo para outro mais simples, ou seja, a forma não pode vir da não forma. A diversidade não pode derivar da não diversidade, nesse sentido usa-se a expressão não dual.
O Senhor tem qualidades e uma forma especial, e Ele vem do mundo espiritual com esta forma e Se manifesta diante deste mundo para o benefício de todos os seres vivos. No contexto da literatura védica, nirguna (sem qualidade) não significa que Ele não tem qualidades. Significa que Ele não possui qualidades materiais. Se Ele não tem quaisquer qualidades, como Ele pode ser misericordioso? Como Ele pode satisfazer todos os nossos desejos? Qual é a utilidade de um Brahman que não ama, que não perdoa? Na verdade,
Ele é a personificação de todas as qualidades transcendentais.
Desse modo, a filosofia de Shankaracharya não aceita a Verdade Absoluta
qualificada por misericórdia, beleza, opulência etc. De acordo com ele, se a Verdade Absoluta é qualificada, em seguida, torna-se limitada pela própria qualificação. Sua conclusão é que, se Brahman é ilimitado, não deve haver qualquer limitação pela qualificação.
Em outros versos do Vedanta-sutra e Upanishads é dito: “anandam brahma – O
Supremo é a personificação da felicidade”. O Supremo tem uma personalidade e é pleno de felicidade. Sem ter uma forma, como pode haver personalidade e sem esta, como pode haver felicidade? Por esse motivo, Shankaracharya se negou a fazer comentários ao sutra ananda-mayo 'bhyasat,“Brahman é bem-aventurado”, deixando em branco esta lacuna.
No entanto, os mayavadis tentam se apoiar nas seguintes declarações dos
Upanishads:
“Deus não é nem grosseiro nem sutil, nem curto nem longo, nem sombra nem
trevas, nem ar nem espaço. Deus não tem olhos e ouvidos ou boca. É sem gosto ou cheiro, fala ou mente, sem um exterior ou um interior. Ele não come nada, nem nada pode comê-Lo.”
(Brhad-aranyaka Upanishad declara 3.8.8)
“Deus não tem um corpo, não tem pecados e qualquer ferimento.”
(Isha Upanishad 8)
Todas as três declarações podem ser facilmente explicadas, baseando-se no fato de que Deus não possui um corpo material, uma vez que há outras declarações sobre a existência de Seu corpo transcendental. Os fragmentos da literatura védica também devem ser entendidos, comparando entre si versos de diferentes livros que formam os membros de uma obra que revela o corpo de Deus num percurso literário.
A filosofia mayavada tenta designar o Senhor como contaminado por um corpo
material quando ele aceita diferentes encarnações e que a alma espiritual, quando encoberta por ignorância, é designada como jiva (entidade viva), mas quando libertada de tal ignorância, ela se funde na existência impessoal da Verdade Absoluta.
Outra alegação feita pela escola Advaita é que Brahman se torna Isvara quando
entra em contato com maya, ou seja, que a Verdade Absoluta primeiramente é impessoal e depois se torna uma pessoa divina. Mas essa ideia já foi de antemão refutada pelo próprio Krishna, cinco mil anos atrás, e registrada no Bhagavad-gita (7.24):
“Homens sem inteligência ou discriminação, pensam que Eu era impessoal e depois assumi esta Personalidade. Eles não conhecem Minha natureza superior, que é imperecível e além de tudo que existe.”
Escola Dvaita (dualista)
As cinco diferenças fundamentais e eternas:
1. Entre as almas e Deus;
2. Entre matéria e Deus;
3. Das almas entre si;
4. Entre a matéria e as almas;
5. Entre os vários tipos de matéria.
Em diversas partes das escrituras védicas, a filosofia Advaita é derrotada pela
Escola Dvaita. No Bhagavad-gita 15.15, Krishna diz:
“Eu estou sentado no coração de todos, e de Mim vêm a lembrança, o conhecimento e o esquecimento. Em todos os Vedas sou Eu para ser conhecido. Eu sou o compilador do Vedanta e Eu sou o conhecedor dos Vedas.”
“A alma individual e a Superalma, a Personalidade de Deus, são como dois
pássaros sentados na mesma árvore, amigavelmente. Uma das aves (a alma condicionada) come o fruto da árvore (o sentido de gratificação concedido ao corpo material), e o outro pássaro (a Superalma) simplesmente observa aquele outro pássaro. Embora os dois pássaros estejam pousados na mesma árvore, o pássaro que come os frutos está totalmente absorto em ansiedade e melancolia, por ser o desfrutador, mas se de uma forma ou de outra, ele vira o rosto para o seu amigo que é o Senhor Supremo e conhece Suas glórias, imediatamente se liberta de toda ansiedade.”
(Svetasvatara Upanishad 4.6-7)
“Dentre muitos seres conscientes, existe um Supremo que é a fonte da consciência.
E dentre inúmeros seres eternos, existe Aquele que é a fonte da eternidade. Este Ser Supremo satisfaz todas as necessidades dos demais.”
(Katha Upanishad 2.2.13)
A jiva é parte integrante do Senhor Supremo e não é possível que ela se torne o
próprio Senhor Supremo, como afirma Krishna na Bhagavad-gita 15.7:
“As entidades vivas condicionadas neste mundo são Minhas eternas partes
fragmentárias. Devido à vida condicionada, elas estão lutando arduamente com os seis sentidos, que incluem a mente.”
“Quando alguém entende que a Suprema Personalidade de Deus e as almas
individuais são entidades eternamente distintas, então pode tornar-se qualificado para a liberação, e viver eternamente no mundo espiritual.”
(Svetasvatara Upanishad 1.6)
bheda vy-apadesac canyah (Sutra 21) - “A Suprema Personalidade de Deus é
diferente da alma individual, e esta doutrina é ensinada em todos os textos védicos.”
Achintya-bheda-abheda (ABA)
A grande revolução na compreensão do Vedanta foi o conceito ABA revelado por Sri Chaitanya Mahaprabhu, através de dez axiomas:
1. Pramana (evidências escriturais): Os ensinamentos dos Vedas, recebido por
intermédio de uma sucessão discipular autorizada, são conhecidos como amnaya. A prova infalível dos Vedas, dos Smrti-sastras (os corolários dos Vedas) encabeçados pelo Srimad Bhagavatam, bem como a percepção sensorial direta, que coincide com a orientação dos Vedas, tudo isso é aceito como pramana (evidência). Este pramana estabelece os seguintes prameyas (verdades conclusivas):
2. Parama-tattva: Krishna é a única Suprema Verdade Absoluta.
3. Sarva-saktiman: Ele é o possuidor de todas as potências.
4. Akhila-rasamrta-sindhu: Ele é um oceano de trocas amorosas doces e
nectáreas.
5. Vibhinnamsa-tattva: As almas são partes integrantes de Deus.
6. Baddha-jivas: Almas condicionadas que estão sujeitas ao controle de maya.
7. Mukta-jivas: Almas liberadas que estão eternamente livres de qualquer influência de maya no mundo espiritual.
8. Acintya-bheda-abheda-tattva: O universo inteiro, que consiste do consciente
(cit) e inconsciente (acit), é a Achintya-bheda-abheda-prakasa de Krishna, ou seja, a manifestação inconcebivelmente diferente e não diferente dEle.
9. Suddha-bhakti: Serviço devocional puro é a única prática (sadhana) para se
alcançar a meta (sadhya) da perfeição espiritual.
10. Krsna-priti: Amor transcendental por Sri Krishna é o único objeto final da
realização espiritual (sadhyavastu).
Cada alma individual é uma parte integrante da Suprema Personalidade de Deus, assim como um raio de sol é parte integrante do Sol. Iguais em qualidade, pois ambos possuem luz e calor, mas distintos em capacidade. A existência da alma individual é diferente do Senhor, dependente do Senhor e está relacionada com o Senhor.
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